CURADORIA POR GABRIEL BORGES
Apresentando
Marvim
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Após os lançamentos de “Oceano Particular”, faixa romântica com influências de trip-hop, e “Maremoto”, que flerta com o dance pop eletrônico, Marvim entrega agora uma obra mais densa e emocional. Ao longo das cinco faixas, o artista conduz o ouvinte por uma jornada de autodescoberta, atravessando desilusões amorosas e o delicado processo de cura que o marcou após enfrentar e vencer um câncer em estágio avançado em 2023.


Desde seu nome que pode significar “amigo do mar”, o EP tem uma identidade aquática muito forte, “Oceano Particular”, “Maremoto”, “Abissal”, “Contramaré”, esses nomes dão a sensação de profundidade e movimento, além de trazer uma sonoridade meio nostálgica com essa influência do trip-hop muito presente. Quando você começou a compor, você já tinha essa ideia de criar um universo “submerso”?

Eu não comecei o projeto com a intenção consciente de criar esse universo submerso, mas tudo o que eu sentia na época me levava pra esse lugar. O mar sempre foi o meu refúgio, sempre morei muito perto dele. Durante o processo de composição, ele acabou virando uma metáfora pra tudo o que eu estava vivendo: a incerteza, a entrega, o renascimento.

Foto por Gabriel Mendes. Divulgação.

A sonoridade veio naturalmente, eu não tinha a ambição de soar de uma determinada maneira, mas penso que muito do meu repertório enquanto ouvinte acabou de refletindo. No fim, acho que CONTRAMARÉ é isso: um mergulho interno, onde cada faixa representa uma camada diferente das profundezas que eu precisei atravessar pra me reencontrar.


Existe uma história ou uma linha emocional que conecta as faixas como se o EP fosse uma jornada dentro de um mesmo oceano?

Sim! Gosto de pensar que CONTRAMARÉ é como um mergulho, e cada faixa representa uma profundidade diferente desse oceano. O EP começa com Oceano Particular, que traz essa doçura de estar se apaixonando , e daí em diante as músicas vão ficando cada vez mais obscuras e barulhentas. É uma jornada de reconexão muito introspectiva e pessoal pra mim.

“Contramaré” é o título do disco e também fecha esse seu projeto de estreia. É proposital, tipo uma resposta ou um renascimento depois da imersão das outras músicas? Ou qual o significado de encerrar com ela?

Foi proposital, sim. Em Contramaré é como se eu tivesse finalmente me reencontrado, depois de tudo. Essa musica representa o momento em que, depois de mergulhar tão fundo, eu finalmente volto à tona. É o instante da aceitação, não no sentido de estar “curado” ou com tudo resolvido, mas de conseguir fazer as pazes com o que ficou. Encerrar o EP com essa faixa foi minha forma de dizer: “eu atravessei, e ainda estou aqui”.

Se esse EP fosse uma carta engarrafada lançada ao mar, quem você queria que achasse?

Foto por Gabriel Mendes. Divulgação.

Eu diria que todas as pessoas que acreditam na beleza da vida, mesmo com seus altos e baixos. Por quem está tentando se reencontrar depois de uma fase difícil, tentando lembrar quem era antes de tudo desabar.


Como artista independente que está começando, como foi o processo de produzir, desenvolver e colocar no mundo pela primeira vez um projeto completo?

Foi um processo de muita entrega e aprendizado. Eu fiz tudo de forma muito intuitiva, buscando traduzir o que eu sentia em som e imagem. Trabalhar de forma independente é desafiador, a gente precisa ser o artista, o produtor, o estrategista e o comunicador ao mesmo tempo, mas também é libertador, porque vale a pena no fim. Ver esse projeto pronto, depois de tudo o que vivi, é uma das maiores vitórias da minha vida.

Quais são suas maiores referências? O que te guiou nesse processo de fazer o EP, mesmo que só como um ponto de partida distante?

Eu diria que a Björk, especialmente em Vespertine, influenciou muito a sonoridade dessas musicas. A Gaga em The Fame Monster também me inspirou a pensar a estética pop mais obscura, e a intensidade emocional das músicas. E, no Brasil, minha base sempre foi a Marisa Monte e a Adriana Calcanhotto, porque minha mãe me criou ouvindo as duas, então inevitavelmente isso está no meu som.

Mas, mais do que essas artistas, o que me guiou foi o silêncio. Foi o tempo que precisei passar comigo mesmo, escutando o que o corpo e a vida queriam me dizer. Contramaré nasceu desse silêncio.


Se você pudesse mostrar o EP pra um artista (vivo ou não) ouvir, quem seria e porquê?

Mostraria pra Björk (risos), porque acho que ela entenderia o movimento interno desse trabalho, e a ideia de criar um universo sensorial a partir de algo muito íntimo. Ela sempre teve essa coragem de traduzir sentimentos em textura, e CONTRAMARÉ também é sobre isso: transformar dor e renascimento em música.


Foto por Gabriel Mendes. Divulgação.

Se esse EP é um mergulho, o que vem depois: respirar ou mergulhar mais fundo?

Por enquanto, respirar. Esse EP foi um mergulho intenso, cheio de descobertas. Mas acho que pra mergulhar de novo é preciso olhar o horizonte com calma, entender pra onde a vida quer me levar. Ainda assim, sei que mais cedo ou mais tarde eu volto.


O que você tem ouvido (discos e/ou artistas) ultimamente e que todo mundo deveria ouvir?

Tenho ouvido discos nacionais incríveis ultimamente. Estou viciado ultimamente em Caminhos Selvagens da Catto, CARRANCA da Urias, e Carrossel da Gab Ferreira.


Uma pergunta que não ninguém escapa no Gabcritic: qual o melhor álbum de 2025 até agora?

Dificil, hein? Eu diria que o Mayhem, da Gaga, foi um eclipse total esse ano.


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#Alternative #Brasileira
Publicado por Gabriel Borges em 13/11/2025

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