Música nunca foi só entretenimento ou hobby pra mim, sempre foi linguagem e meu modo de viver e sobreviver. Ao longo dos meus recém completados 31 anos (no último 04 de janeiro), muitos álbuns, EPs e mixtapes me ajudaram a entender o que é desejo, identidade, dor, poder, prazer, enfim, a entender a vida.
Minha amiga Fernanda Hofmann, sim, a cantora-compositora e multi-instrumentista que já me concedeu uma entrevista aqui no site, meio que me desafiou a fazer uma lista com a quantidade de álbuns para cada ano de vida. Eu amei a ideia e então essa lista a seguir não foi feita só pra definir “os melhores discos de todos os tempos na minha opinião”, mas pra celebrar como a música moldou quem eu sou. São álbuns que me formaram emocionalmente, moralmente e criticamente, são obras que seguem ecoando em mim e que tento sempre fazer ecoarem pelo mundo.
#1 Charli XCX — True Romance (Reino Unido, 2013)

O True Romance é Charli antes do underground ser tão pop, mas sempre foi cool. É obra-prima cheia de letras confessionais, profundas e apaixonadas. Um álbum dançante, cheio de cores, texturas e sentidos, e que soa como o Tumblr em sua época de glória vivida pela a juventude de 2012-2013, juventude que achava ser cheia de atitude e de melodrama. É um álbum que marca aquele momento em que querer sentir tudo era intenso demais, exatamente por isso é inesquecível, é o meu álbum favorito da vida.
Ouça minhas favoritas: Cloud Aura; Black Roses; You’re The One.
#2 Marina and the Diamonds — Electra Heart (Reino Unido, 2012)

Electra Heart é tipo uma ópera pop, é sobre identidade, pertencimento, performance e o ego como construção e ponto focal. Marina deu vida a uma personagem e transforma arquétipos em confissões, misturando ironia, dor e glamour com tamanha precisão cirúrgica. É um álbum que me ensinou sobre a vida em outras perspectivas, e principalmente, a ser uma pessoa performática num mundo onde todos querem o papel de protagonista.
Ouça minhas favoritas: Starring Role; Valley of the Dolls; Lonely Hearts Club.
#3 Icona Pop — Icona Pop (Suécia, 2012)

Apesar de nunca ter sido lançado mundialmente, ter ficado só lá pela Suecia, esse disco é, para mim, sinônimo de ser jovem e querer viver em estado bruto nas noites sem fim. As letras sempre muito polidas, sempre com refrões gritantes por liberdade sem pedir desculpa. Icona Pop captura o espírito de querer sentir tudo no agora, mesmo que dê errado depois. É caos pop que envelhece como ótimas memórias.
Ouça minhas favoritas: We Got The World; Top Rated; Flashback.
#4 Kesha — Animal (EUA, 2010)

Animal é pura explosão de personalidade. Esse álbum me moldou para ser a pessoa que me tornei e que também desejava ser. É o álbum que influenciou inclusive a começar a escrever. Kesha transformou excesso em estética e diversão em manifesto, ela criou um pop sujo, debochado e que representa tudo que eu queria para essa vida. É um álbum que representa a alegria como resistência, é sobre viver como você quer viver sem medo de ser verdadeiro.
Ouça minhas favoritas: Hungover; Blind; Dancing With Tears In My Eyes.
#5 Lady Gaga — The Fame (EUA, 2008)

The Fame não é só um debut: é um reset cultural. Gaga redefiniu o mundo entregando que pop é conceito, espetáculo e crítica social, tudo ao mesmo tempo. Não tenho mais palavras para dizer o quão obcecado sou por esse álbum e o quão ele é importante para o mundo!
Ouça minhas favoritas: LoveGame; Brown Eyes; Again Again.
#6 Natalia Kills — Perfectionist (Reino Unido, 2011)

Perfectionist é afiado, teatral e até deliciosamente cruel. Natalia Kills mistura ambição, ego e vulnerabilidade em um pop sombrio que soa como confissão e ataque, tudo ao mesmo tempo. Muita gente pode até preferir o Trouble, talvez por causa da época que foi lançado, mas o Perfectionist, como o título sugere, é uma obra que existe para a perfeição e que nunca pediu ou precisou de aprovação para ser grandioso. E você já viu toda a estética da era desde os videoclipes, ensaios fotográficos e até mesmo o encarte todo em preto, branco e vermelho?
Ouça minhas favoritas: Break You Hard; Love Is a Suicide; Superficial.
#7 Nicola Roberts — Cinderella’s Eyes (Reino Unido, 2011)

Esse disco é uma joia rara do pop britânico que deveria receber muito mais prestigio e aclamação. Cinderella’s Eyes une verdade, delicadeza, batidão, melancolia e elegância em canções que crescem faixa a faixa, e elas ficam no para sempre da sua memória. Nicola construiu um universo etéreo onde fragilidade virou força e ela mostra toda a grande potência que ela sempre foi.
Ouça minhas favoritas: Porcelain Heart; Gladiator; sticks + stones.
#8 Frida Sundemo — For You, Love (Suécia, 2013)

Eu sou apaixonado por cantoras e compositoras suecas, e nesse disco aqui, Frida Sundemo conseguiu ser emocionalmente precisa, ela fez uma álbum forte e que ao mesmo tempo soa como um coração falando baixo por causa da sua voz única. For You, Love como álbum não foi lançamento mundialmente, somente no Japão (foi lançado mundialmente o Indigo EP e alguns singles, mas não as 17 faixas), o álbum aposta em intimidade, sintetizadores brilhantes e letras que doem sem dramatizar. É música para ouvir sozinho, sentindo cada palavra encaixar dentro de si, mesmo que você nunca tenha experienciado uma nevasca escandinava.
Ouça minhas favoritas: Snow; For you, Love; The Unicorn and I.
#9 Lykke Li — I Never Learn (Suécia, 2014)

Para mim, o I Never Learn é o som de aceitar a dor e que você nunca vai conseguir consertar. Lykke Li entregou um álbum pesado, lento, demasiadamente e devastadoramente honesto (não sei de onde tirei essa palavra mas é assim que eu me sinto sobre), onde o sofrimento não vai ser superado, apenas sempre vivido. Me faz sentir e entende que algumas feridas viram companhia, e muitas vezes a vida é sobre isso, deixa rolar.
Ouça minhas favoritas: I Never Learn; Gunshot; Love Me Like I’m Not Made Of Stone.
#10 Susanne Sundfør — Ten Love Songs (Noruega, 2015)

Esse álbum transforma sentimentos em algo quase que material que você consegue tocar. É uma Bíblia do synthpop. Ponto. Ten Love Songs é grandioso, teatral, cinematográfico e profundamente humano, equilibra sons eletrônicos tão sofisticados com emoção crua que me faz fiquei em choque. Mesmo com uma música de 10 minutos. Susanne faz do amor algo épico e, ao mesmo tempo, sei lá, meio perigoso.
Ouça minhas favoritas: Accelerate; Kamikaze; Delirious.
#11 Poppy — I Disagree (EUA, 2020)

E então no seu terceiro álbum, Poppy explode a própria imagem. I Disagree mudou totalmente a sonoridade e o rumo da carreira, um álbum que mistura rock e metal e não deixa de ser pop, cheio de ironia para questionar quem tem o controle, quem é a indústria e também identidade, que ela já tinha até trazido lá no ‘Am I Girl?’. É agressivo e libertador, é finalmente um grande grito artístico contra qualquer caixa que tentaram colocá-la antes, e desde então ela vem amadurecendo, se achando e se mostrando cada vez mais.
Ouça minhas favoritas: BLOODMONEY; Sick Of The Sun; Don’t Go Outside.
#12 Jonas Brothers — Jonas Brothers (EUA, 2007)

Esse álbum carrega nostalgia pura. Jonas Brothers representa um tempo mais simples, de pop-rock que pode ser chamado de juvenil, mas que na verdade é atemporal, é cheio de melodias grudentas e sentimentos intensos sem cinismo. É puro. É tão lindo ouvir e ter memórias afetivas que sobrevivem ao tempo, mesmo quase 20 anos depois. Tenho muito orgulho de ser fã deles há tanto tempo.
Ouça minhas favoritas: Australia; Games; When You Look Me In The Eyes.
#13 Self Esteem — Prioritise Pleasure (Reino Unido, 2021)

Esse aqui é um manifesto moderno sobre autoestima, desejo e autonomia. Self Esteem mistura vulnerabilidade com força, criando músicas tão honestas sobre se escolher, se colocar em primeiro lugar e não pedir desculpa. É terapêutico, é político e é libertador. É um álbum que me cura toda vez que ouço.
Ouça minhas favoritas: Prioritise Pleasure; Moody; How Can I Help You.
#14 Colette Carr — Skitszo Collection (EUA, 2013)

Skitszo Collection é caos criativo, recheado de atitude e energia sem filtro. Colette Carr misturou pop com rap com tanta irreverência e personalidade de sobra. Um álbum muitas horas muito divertido, que me faz sentir livre, confiante e perfeitamente imperfeito. Saudades de quando ela fazia música e entregava arte, mas desistiu da carreira para virar mãe de três lindas crianças e se dedicar a Deus. A Colette é uma das artistas que eu mais sinto falta na indústria, a mente dela para escrever e cantar era incrível.
Ouça minhas favoritas: Mes Amis (We Can Party); Killswitch; Delusional.
#15 Halsey — Manic (EUA, 2020)

Manic é Halsey se permitindo ser múltipla. Fragmentado, emocional e confessional, o álbum abraça as contradições de ser você em vez de querer ajeitar as coisas. É tão eu. Vocês não se sentem assim? Soa como alguém tentando se entender em tempo real e sendo honesta sobre isso, eu me vejo muito nesse álbum, nas letras tanto literalmente quanto nas entrelinhas.
Ouça minhas favoritas: Graveyard; You should be sad; 3am.
#16 Allie X — Collxtion I (Canadá, 2015)

Simplesmente fascinante. Collxtion I é pop conceitual, intenso por dentro e por fora. Allie X transforma estética em narrativa e solidão em estilo. Uma obra prima do synthpop, esse disco é, para mim, poderia ser um refresh cultural pós-Gaga, mas como não atingiu o mundo todo, só o mundinho alternativo…
Ouça minhas favoritas: Catch; Tumor; Bitch.
#17 Femme — Debutante (Reino Unido, 2016)

Debutante é um debut cheio de personalidade. Totalmente barulhento, é um pop raro do melhor jeito britânico de ser, Femme criou músicas confiantes e provocadoras, onde cada faixa soa como única, que conversa com os fãs, e tudo se encaixa para ser parte de um todo.
Ouça minhas favoritas: Romeo; S.O.S.; Locoluvva.
#18 Purity Ring — another eternity (Canadá, 2015)

Etéreo e visceral, another eternity mistura beats delicados com letras sombrias criando um contraste hipnótico. É pop experimental que se conecta com sentimentos difíceis de se falar sobre ou até mesmo de expressar. Todas as letras são tão carregadas de poesia, a inquietação das palavras brilham com se tivessem vida própria.
Ouça minhas favoritas: repetition; stranger than earth; stillness in woe.
#19 Tove Styrke — HARD (Suécia, 2022)

HARD é direto e sem rodeios, super afiado. Tove Styrke canta sobre desejo, controle e independência com uma frieza calculada que funciona perfeitamente sem deixar pontas soltas. E daí que é um álbum curto? Mesmo assim é tão intenso, original e cheio de personalidade.
Ouça minhas favoritas: Another Broken Heart; Hardcore; Start Walking.
#20 Agnes — Magic Still Exists (Suécia, 2021)

Agnes provou que maturidade também é pista de dança. Magic Still Exists é incrivelmente elegante, espiritual e pulsante, celebrando corpo, liberdade e prazer. Esse é outro disco que me cura ao ouvir. Brilha e que me faz pensar que nenhuma experiência deve ser realmente única.
Ouça minhas favoritas: XX; Love And Appreciation; Magic Still Exists.
#21 Say Lou Lou — Immortelle (Suécia, 2018)

Immortelle é melancólico, delicado e profundamente atmosférico. As irmãs Kilbey nunca erraram em nada dentro da discografia delas, mas nessa obra-prima, elas criaram um som que parece flutuar, carregado de saudade e que descreve uma beleza que você vislumbra só de ouvir.
Ouça minhas favoritas: Ana; Limbo; Phantoms.
#22 BANKS — III (EUA, 2019)

Esse álbum marca BANKS no controle total da própria narrativa. III tem uma sonoridade muita mais dark-pop e é confiante, ousado, maduro, sensual e emocionalmente deliberado, ela canta tanto sobre estar cansada quanto amar.
Ouça minhas favoritas: Gimme; Stroke; Godless.
#23 Lou Roy — Pure Chaos (EUA, 2022)

Como o título sugere, Pure Chaos é intensidade sem filtro. Lou Roy entrega emoção crua, melodias lindamente simples e sentimentos à flor da pele. É completamente honesto e exatamente por isso, puro caos.
Ouça minhas favoritas: Scroll; If We Were Strangers; Dream.
#24 Rebecca & Fiona — Beauty Is Pain (Suécia, 2014)

Beauty Is Pain mistura euforia e melancolia em faixas feitas para dançar chorando na pista da festa mais badalada, ou então sozinho no meio do quarto com luzes cintilantes fazendo a ambientação. É um álbum com letras simples, mas muito precisas e poéticas que dizem tudo que precisam dizer. É aquele negócio que o povo sueco sabe muito bem fazer música e colocar sentimentos e emoções que todos vão conseguir entender.
Ouça minhas favoritas: Candy Love; Hit the Drum; Clara.
#25 Donna Missal — Revel (EUA, 2023)

Revel é poder vocal e emoção sem medo. Donna Missal entrega tanta intensidade, cada música soa como uma purificação diferente para minha alma. Um álbum que também cresce faixa a faixa e fica na memória pela honestidade, e talvez pelas lágrimas que hora ou outra escorrem dos olhos.
Ouça minhas favoritas: Move Me; Dance in the Light; Out of Me.
#26 Priest — Priest LP (EUA, 2015)

Quase ninguém conhece esse álbum, e quem conhece é porque tem muito bom gosto. Um delicioso synthpop totalmente despretensioso que torna a experiência de ouvi-lo um verdadeiro deleite. É nostálgico e ao mesmo tempo sobre momentos atuais, pode soar oitentista, mas é completamente original.
Ouça minhas favoritas: Heartbeats; Staring At The Walls; Broken.
#27 HOLYCHILD — The Theatrical Death Of Julie Delicious (EUA, 2019)

Esse talvez seja o álbum mais exagerado que eu já ouvi nesta vida, além de ser um álbum visual, é cheio de drama e sentimentos com letras tão inteligentes. HOLYCHILD entregou seu último álbum da carreira com o mesmo humor que fizeram no álbum anterior e EPs, cheio de críticas e teatralidade em músicas que soam como um espetáculo caótico. Eu queria morar dentro da ponte instrumental de Hunt Me in the Night.
Ouça minhas favoritas: Raining Romance; Hunt Me in the Night; Patron Saint.
#28 Lissie — Castles (EUA, 2018)

Castles é tipo uma força tranquila, Lissie canta sobre se reconstruir, se autoafirmar, amadurecer e resistir com uma honestidade que arrepia. É uma narrativa sobre como encontrar si mesmo depois da mudança e ter a estabilidade depois da tempestade.
Ouça minhas favoritas: Blood & Muscle; Love Blows; Meet Me in the Mystery.
#29 Avec Sans — Heartbreak Hi (Reino Unido, 2016)

Em resumo: synths brilhantes que alimentam a alma com batidas, texturas e algo que soa como os anos 90 que a pessoa que nasceu em 95 não viveu porque era novo demais. Heartbreak Hi é melancólico, comovente, dançante e emocionalmente direto. É pop para alguns corações partidos, mas que estão aí se mexer, corações que não querem vingança, só seguir em frente.
Ouça minhas favoritas: Heartbreak Hi; Shiver; The Answer.
#30 Nicole Dollanganger — Flowers of Flesh and Blood (Canadá, 2012)

Extremamente delicado e perturbador, esse álbum é terrivelmente lindo. Nicole transforma trauma e fragilidade em arte, criando um disco difícil de ouvir (para muitos) e que é profundamente impactante. De novo, não é para todos, é para quem sente que há algo ainda mais fundo do mais fundo das profundidades que você conhece.
Ouça minhas favoritas: Nebraska; Danny; Flowers of Flesh and Blood.
#31 Sky Ferreira — As If! (EUA, 2011)

O EP que deveria ser uma prévia do álbum de estreia que acabou sendo engavetado, bem antes do Night Time My Time, o As If! carrega o caos artístico que define Sky Ferreira. É um símbolo de potência, frustração e liberdade. Esse EP existe quase como mito, e talvez por isso seja tão importante para mim. É a verdade perfeita que acabou sendo silenciada e que levou a carreira de uma artista que sempre foi e continua sendo incrível a dar uma outra volta de 360 graus desde lá o comecinho.
Ouça minhas favoritas: Sex Rules; Traces; 99 Tears.
Enfim, cheguei ao fim, por enquanto, e se você já viveu algo parecido através da música, talvez se reconheça aqui também. Esta lista é sobre eu existir. E espero que nesse novo ano e novo ciclo muita música boa nasça.
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